Sem instituições
sólidas e respeitadas, a política de inclusão social e econômica não bastará ao
Brasil
Passada
a moda da cidadania, veio a da república. Como no primeiro caso, não se sabe
bem o que se quer dizer com a segunda palavra. Mas a nova moda sugere um
pequeno exercício de interpretação da vida política do País mediante um
contraste entre república e democracia.
República
é forma de governo, mas também valores e um modo de governar, que é o que me
interessa aqui. O coração da república está na própria palavra, coisa pública.
Desde sua criação pelos romanos, ela significa igualdade civil e governo voltado
para o interesse coletivo. Montesquieu a caracterizou como governo de cidadãos
virtuosos. Entre nós, frei Caneca foi quem melhor a formulou.
A
democracia, por seu lado, desde as origens gregas, sempre teve a ver com o
governo da massa. Esse governo não precisa coincidir com bom governo. Daí que
república não é o mesmo que democracia. Havia escravos nas repúblicas romana,
norte-americana e latino-americanas. A democracia, na verdade, foi vista até a
metade do século 19 como fator de corrupção da república.
Quando
a democracia foi domesticada pela representação, tornou-se compatível com a
república. Esta passou, então, a poder ser democratizada, seja politicamente
pela extensão da participação a todos os cidadãos, seja, mais tarde,
socialmente, pela inclusão social de todos. Juntar bom governo e inclusão
política e social passou a ser um ideal dos países ocidentais. Cada país
perseguiu à sua maneira esse objetivo.
A
República proclamada em 1889 no Brasil estava longe de ser democrática. Ela
sobreviveu 41 anos sem povo e sem preocupação social. Como avanço democrático
trouxe só a extinção do voto censitário, mantendo a exclusão dos analfabetos,
que eram 85% da população. Até 1930, a participação eleitoral nas eleições
presidenciais não passou de 5% da população. Era uma República patrícia e
oligárquica, em que não havia lugar para povo, em que o bem comum era o bem de
poucos, embora não faltasse honestidade aos governantes. Ouviram-se logo vozes
dizendo que aquela não era a República dos sonhos dos propagandistas. Em nossos
termos, dizia-se que era preciso democratizar a República.
Em
1930, houve uma ruptura na República. Além de um violento processo de
urbanização, que fez do Brasil, em 50 anos, um país urbano, teve início a
democratização política da República com a entrada em cena do povo. A
Constituição de 1946 tornou o alistamento e o voto obrigatórios para todos. A
participação eleitoral de 5% da população subiu para 70% ao final do século. Os
2,6 milhões de eleitores de 1934 viraram 130 milhões em 2009, dos quais 40
milhões começaram a votar durante a ditadura. A democratização da participação
escancarou também o acesso ao fechado clube da elite política. Zé da Silva
começou a votar e a ser votado.
Começou
também a democratização social da República. O Estado Novo promulgou a CLT e
ampliou a legislação social. A ditadura militar ampliou a Previdência. Nos
últimos 15 anos, sob a democracia política, a inclusão ampliou-se no campo da
educação fundamental e da assistência às camadas mais pobres da população.
Diante
de tantos avanços, poder-se-ia concluir que já temos uma República democrática,
um bom governo numa sociedade igual e includente.
A
conclusão seria precipitada. Passo por cima dos problemas referentes à inclusão
social, que têm a ver com a manutenção da desigualdade, a má qualidade da
educação fundamental e o restrito alcance do ensino médio. No que tange à
prática política, a entrada rápida e massiva do povo no sistema eleitoral foi
feita em boa parte durante a ditadura. Mais ainda, o grande déficit educacional
e os altos níveis de pobreza ainda prendem a maior parte dos eleitores dentro
do círculo de ferro da pobreza. O grau de informação e de liberdade de escolha
desse eleitorado é reduzido e ele fica vulnerável a apelos populistas,
paternalistas, clientelistas. Seu voto é racional, mas obrigatoriamente preso
às necessidades imediatas.
Nossas
instituições políticas, sobretudo as representativas, não contam com o respeito
dos cidadãos. O fato de o problema não ser só nosso não significa que não constitua
uma fraqueza da República. Destaco apenas dois pontos. O primeiro consiste no
fato de que nossos políticos, muitos deles formados durante a ditadura, exibem
reiterado desrespeito ao cargo e aos dinheiros públicos. Não por acaso, as
pesquisas de opinião os colocam sempre nas posições mais baixas (20%) da escala
de confiabilidade.
O
segundo tem a ver com a relação entre Legislativo e Executivo. Nossa República
escolheu ser presidencial. Desde o início, implantou-se um presidencialismo
imperial que se sobrepõe ao Legislativo e, no limite, o reduz a mero
intermediário entre eleitor e governo. A principal dificuldade dos presidentes
consiste em formar maiorias parlamentares. Eles a resolvem negociando favores e
benesses.
A
igualdade de todos perante a lei, requisito republicano, é ainda letra morta da
Constituição. Nosso Judiciário é lento e ineficiente, tornando a lei um
instrumento desigual de proteção e punição. Qual é o mensaleiro que foi
condenado em última instância? Nossas polícias estão longe de padrões
aceitáveis de eficiência e correção funcional, para dizer o mínimo.
Desde
1988 várias propostas de reforma já foram feitas para corrigir as falhas do
sistema, sobretudo no campo eleitoral e partidário. Ironicamente, o momento
positivo que vivemos tem bloqueado o debate das reformas. O que vemos é um
presidente popular, um Executivo hegemônico, um Congresso desmoralizado,
partidos que abandonaram programas em troca de um pragmatismo radical voltado
para cálculos eleitorais.
Tudo
isso pode ser democrático, mas não é republicano. A democracia avançou mais
rápido do que a República. Pode-se argumentar que essa é nossa originalidade,
construir uma democracia sem República. A preocupação com o bom governo,
eficiente, transparente e virtuoso, seria, nessa perspectiva, moralismo
udenista. Nosso método original de inclusão seria o iberismo estatocêntrico e
patrimonialista.
Parece-me,
no entanto, que valores e práticas republicanas são essenciais para a
consolidação da democracia. Não se trata de udenismo. Trata-se de civismo, de
valorização do interesse coletivo e do bom governo, sem os quais não se garante
a eficácia e a respeitabilidade das instituições. Sem instituições sólidas e
respeitadas, nossa República ibérica permanecerá vulnerável aos ventos das
crises econômicas e políticas. Valores e práticas republicanos não são apenas
meio, mas também fim.
Acoplar
República e democracia é particularmente importante no momento em que o País
retoma o velho sonho de grande império. Para realizar esse sonho é preciso
respeitabilidade externa, que não se consegue apenas com crescimento econômico
e inclusão social. São necessárias também instituições políticas sólidas e
padrões internacionais de moralidade pública.
A
República precisa da democracia para se legitimar, a democracia precisa da
República para se consolidar. O equilíbrio entre as duas está no coração de
nosso problema político hoje.
José
Murilo de Carvalho, Historiador, membro da Academia Brasileira de Letras e
autor de A Construção da Ordem / Teatro de Sombras (Civilização Brasileira)
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