quinta-feira, 12 de maio de 2016

Alexis de Tocqueville

Nascido em Paris no ano de 1805, Tocqueville faleceu jovem, em razão de sua frágil saúde, no ano de 1859.

Sua ida para os Estados Unidos o fez reconhecer que a democracia e igualdade norte-americana tinham progredido mais do que em outros países. Porém, advertia que os perigos da democracia seriam o materialismo e excesso de individualismo.

Em 1848 fez um inflamado discurso na Assembleia Constituinte da França, afirmando que os ideais da Revolução Francesa traziam, implicitamente, um futuro de democracia e a rejeição do socialismo.

Toquecivlle argumentava contra o socialismo, seguindo três frentes: 1) ignoraria vários ideais humanos, como a generosidade e a virtude, jogando com as paixões materiais dos homens; 2) ao ignorar a propriedade privada, vitaria algo essencial para a liberdade; 3) O socialismo desprezava o indivíduo.

O Socialismo, segundo o autor, sufocaria a iniciativa individual através de um Estado sufocador que se tornaria o "senhor de cada homem".  Para ele, democracia e socialismo seriam o oposto.

Tocqueville reconhecia que os ideais da Revolução Francesa tinham sido traídos, com a obtenção de privilégios e muita corrupção. Isso seduziria as classes mais baixas aos ideais do socialismo.  

A solução para o problema não seria encontrada no socialismo, mas no ideal revolucionário de uma sociedade livre e sem classes. O socialismo atiçaria os donos de propriedades contra o proletariado, recriaria divisões sociais. 

Tocqueville deslumbrava uma sociedade democrática com crescimento de empresas e com a proteção dos pobres e vulneráveis pela caridade cristã. 

"O SOCIALISMO É UM NOVO SISTEMA DE SERVIDÃO"

"A DEMOCRACIA VISA À IGUALDADE NA LIBERDADE. O SOCIALISMO DESEJA A IGUALDADE NA LIMITAÇÃO E NA SERVIDÃO"

ALEXIS DE TOCQUEVILLE

Principais obras: "Da democracia na América" (1835, 1840), "O antigo regime e a revolução" (1856)

Fonte: O livro da Política. Paul Kelly...[et al]. São Paulo: Globo, 2013, p. 170 e 171.

Giuseppe Mazzini

Giuseppe Mazzini nasceu em 1805 e faleceu em 1872. Pensador político e ativista, inspirou os levantes europeus em 1848.

Filho de médico, nascido em Gênova (Itália), foi preso e exilado algumas vezes. Fundou a Jovem Itália, que lutava por uma nação unificada por meio de agitações e levantes. Muitos, seguindo seu exemplo, criaram organizações similares.

Citava o dever com a humanidade, ou seja, que os indivíduos cooperassem com os objetivos comuns. Um país seria uma oficina para que um indivíduo servisse à humanidade.

Mazzinni percebeu que o avanço na liberdade, no século anterior, não foi acompanhado pelo progresso nas condições dos trabalhadores. Portanto, o desenvolvimento econômico só tinha beneficiado poucos privilegiados, não a maioria. 

Para Mazzini, a ideia seria o pensar no "nós" e não no "mim". Afinal, a busca de direitos individuais seria insuficiente para o bem social (primeiro porque nem todos são capazes de exercer seus direitos, segundo porque a procura por interesses individuais leva à cobiça e ao conflito). Assim, os direitos individuais devem estar sujeitos ao dever das pessoas com seu próprio país.

"AO TRABALHARMOS POR NOSSO PRÓPRIO PAÍS SOB O PRINCÍPIO CORRETO, TRABALHAMOS PARA A HUMANIDADE" 

"NÃO DIGA EU, MAS NÓS"

GIUSEPPE MAZZINI.

Principais Obras: "On nationality" (1852) "Os deveres do homem e outros ensaios" (1860)

Fonte: O livro da Política. Paul Kelly...[et al]. São Paulo: Globo, 2013, p. 172 e 173.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Sobre a data de hoje (11 de maio, provável data do afastamento da presidente)

Caríssimos,
Esse blog possui um conteúdo acadêmico. Geralmente, não emito opiniões sobre a política do cotidiano por diversas razões (inclusive, leciono para pessoas ligadas à política das mais diferentes tendências).
Não obstante, cansado de ler matérias carregadas de profundo teor ideológico, teço alguns comentários.
Há um ideia disseminada de que, a partir de hoje, os 5.570 municípios brasileiros serão impregnados pelo espírito da ética. Prefeitos e câmaras municipais, profundamente inspirados, farão um novo Brasil. O mesmo dar-se-á com os 27 Governadores, Assembleias Legislativas, Congresso Nacional. Certamente, isso não ocorrerá. A crise é econômica (conjunção de forças do capital e inabilidade da presidente) e o que presenciamos é quase um voto de desconfiança ao estilo parlamentar. 
Esses que agora falam em ética, ao vivo na televisão, sabem disso. A voz de famílias tradicionais que, desde 1500, desfrutam privilégios, justamente pela ausência de ética. Pobres índios, pobres enforcados nos movimentos da História. Há sempre esperança. Porém, esperança não combina com indiferença. Esperança não combina com passividade.
Um novo país se faz com educação, oportunidades, dignidade. O descompasso nessa tríade configura um distanciamento do sonho de um país justo. Observando-se a realidade nacional, difícil elencar qual das três pontas do tripé encontra-se mais distante.

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Parlamentarismo no Brasil?

A Revista Super Interessante desse mês (Edição 360, maio de 2016, Pedro Burgos, páginas 8 e 9), em matéria simples, traz aspectos relevantes para a análise de um tema que está em moda: O Brasil deveria ser parlamentarista?

Primeiramente, traz dados relevantes sobre países que o adotam: "Islândia, Austrália e Grécia, além de 24 dos 28 países europeus e da maioria das economias desenvolvidas do mundo, têm sistemas parlamentaristas, e não presidencialistas". Portanto, a maior parte dos países desenvolvidos são parlamentaristas e há uma nítida vantagem: possibilidade de troca de governo sem ameaçar a democracia.

Ademais, aborda casos recentes em alguns países

- Islândia: " Em um domingo de Abril, os habitantes da Islândia ficaram sabendo que o seu primeiro-ministro, Sigmundur David Gunnlaugsson, tinha participação em uma empresa não declarada em paraísos fiscais. Pegou mal. Já na segunda-feira, multidões tomaram as ruas exigindo que ele renunciasse. Na noite de quarta-feira, Gunnlaugsson já havia deixado o cargo, os deputados entraram em acordo para o nome do novo chefe de governo. E as eleições, que aconteceriam no fim de 2017, foram antecipadas em um ano. Um escândalo, enfim, mas sem grandes traumas. Os 323 mil habitantes da ilha parecem satisfeitos com a solução".

- Austrália: "Em setembro do ano passado, a Austrália trocou de ministro porque tanto a opinião pública quanto o próprio partido do primeiro-ministro Tony Abbott não estavam satisfeitos com seu governo. ´O primeiro-ministro da Austrália não é um presidente. Ele é o primeiro entre os iguais`, disse o novo ocupante do cargo, Malcolm Turnbull, do mesmo partido do agora ex-mandatário. Sem trauma. Sem golpe."

- Grécia: "Alexis Tsipras, primeiro-ministro da Grécia, foi eleito em janeiro de 2015 para tirar o seu país do buraco. Sete meses depois, seu plano não havia conseguido o apoio necessário no Parlamento, e vários deputados do seu partido abandonaram o barco. Novas eleições gerais foram convocadas para dali a um mês. Sua base foi recomposta, com novos parlamentares. E Tsipras foi reconduzido ao cargo, agora fortalecido. 

A revista lembra do plebiscito que tivemos no Brasil em 1993 e a grande vitória do presidencialismo com 69,2% dos votos válidos. Lembra que a ideia sempre foi forte nos corredores no Congresso (Ulisses Guimarães, Fernando Henrique Cardoso e muitos políticos famosos defendiam ou defendem o Parlamentarismo). Talvez, por razões históricas e culturais, os brasileiros nunca gostaram da ideia.

A Revista traz as vantagens do sistema parlamentarista: "No Parlamentarismo, pode haver um presidente também - ou mesmo um rei - mas eles têm poderes limitados. A democracia nesse sistema funciona com o povo votando em deputados e partidos. Em linhas gerais, o partido que teve mais votos se alia a algum outro e, com o controle dos votos na Câmara, escolhe o primeiro-ministro e decide a política econômica e as leis que serão votadas.
Se houver um escândalo envolvendo o primeiro-ministro, ou se um partido sair da base, é comum que outra pessoa seja colocada no lugar, e as coalizões sejam refeitas. Mesmo quando novas eleições são convocadas, não há tanto choque quanto em uma democracia presidencialista. Historicamente, escândalos envolvendo chefes de Estado em regimes presidencialistas terminam em golpe militar, guerra-civil, suicídio do indivíduo deposto. Muito drama, pouco cérebro, toneladas de impasses."

Mas, afinal, o Parlamentarismo daria certo no país? A revista conclui: "Não damos importância para o Congresso. Em uma pesquisa de 2014, quase metade da população disse não se lembrar de em quem votou para deputado nas eleições anteriores. Outro problema: com 35 partidos políticos, sem coerência ideológica, é difícil pensar em uma coalização sendo formada sem feira de cargos(...)antes de discutir o parlamentarismo, precisamos repensar o Parlamento. Acompanhar a atuação dos representantes, cobrar coerência ideológica e, bem, votar em gente que possa fazer alguma diferença, e não simplesmente em gente famosa"  

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Segundo relato da Oxfam International, o grupo com 1% das pessoas mais ricas do planeta vai superar as posses dos 99% mais pobres. (link: http://sinduece.org.br/noticias/em-2016-grupo-com-1-dos-mais-ricos-mundo-vai-superar-os-99-mais-pobres/

Algo está errado, não há dúvidas. Para fins de reflexão, trecho de Bobbio:


“As democracias que governam os países mais ricos do mundo são capazes de resolver os problemas que o comunismo não conseguiu resolver? Este é o problema. O comunismo histórico faliu, não discuto. Mas os problemas continuam, exatamente aqueles mesmos problemas, talvez agora e em um futuro próximo, em escala mundial, que a utopia comunista apontava e considerava possíveis de ser solucionados. Essa é a razão pela qual é tolo alegrar-se com a derrota e, esfregando as mãos de contentamento, dizer: ´Nós sempre dissemos que seria assim!´. Ou, iludidos, vocês realmente acreditam que o fim do comunismo histórico (insisto no ´histórico`) tenha posto fim à necessidade e à sede de justiça?” (BOBBIO, Norberto. Teoria Geral da Política: a filosofia política e as lições dos clássicos. Rio de Janeiro, Elsevier, 2000, p.373)

Se há justiça no sistema atual, parece-nos que não. Convidamos o leitor para reflexão do link colacionado e do trecho exposto. Um ótimo dia!!!

terça-feira, 3 de maio de 2016

Análise da Cidadania

Abrindo-se a Constituição, logo em seu primeiro artigo, lê-se que a cidadania é um dos fundamentos da República Federativa do Brasil.

Por conseguinte, falar sobre cidadania é dissertar acerca de um dos alicerces da nossa República Federativa. O que é ser cidadão?


"Ser cidadão é ter direito à vida, à liberdade, à propriedade, à igualdade perante a lei: é, em resumo, ter direitos civis. É também participar no destino da sociedade, votar, ser votado, ter direitos políticos. Os direitos civis e políticos não asseguram a democracia sem os direitos sociais, aqueles que garantem a participação do indivíduo na riqueza coletiva: o direito à educação, ao trabalho, ao salário justo, à saúde, a uma velhice tranquila" (PINSKY, Jaime; PINKSY, Carla Bassanezi.História da Cidadania. 4 ed. São Paulo: Contexto, 2008, p. 9)

Depreende-se que ser cidadão não é apenas votar. Por sinal, a amplitude do conceito de cidadania é cada vez maior. Nessa esteira, precisas são as palavras de Manoel Jorge e Silva Neto:

"O conteúdo jurídico tradicional da expressão ´cidadania` reconduz ao exercício do direito político ativo, ou seja, o de eleger representantes para o parlamento ou os detentores dos cargos de chefia do Poder Executivo federal, estadual e municipal.
 (...)
Entretanto, há mais espaço para o acolhimento da restritiva acepção do termo ´cidadania`, principalmente porque a sua inclusão como fundamento do Estado brasileiro permite ampliar o seu espectro, compreendendo, a partir da Constituição de 1988, duas realidade que, malgrado guardem alguma semelhança, não devem ser objeto de identificação absoluta:
a) cidadania em sentido estrito; e
b) cidadania em sentido amplo
A primeira corresponde à antedita fruição do direito político ativo.
Já a segunda comporta desdobramentos que se afinam propriamente ao Estado Democrático de Direito.
Consagrar o fundamento referente à cidadania em sentido amplo é vincular o Estado à obrigação de destinar aos indivíduos direitos e garantias fundamentais, mui especialmente aqueles relacionados a direitos sociais.
Então, isso quer dizer que o reconhecimento da cidadania em um sistema político está na razão direta da sua capacidade de garantir às pessoas o direito à liberdade, à igualdade substancial, à vida, à incolumidade física – direitos criados pelo constitucionalismo clássico -, mas, sobretudo, os atinentes à educação, à saúde, ao trabalho - , enfim todos os direitos de caráter prestacional -, além, é claro, como não poderia deixar de ser, dos direitos políticos.
(...)
Igualmente admitindo a amplitude do Princípio Fundamental, verbera Calmon de Passos que ´(...) ser cidadão plenamente significa poder de participação efetiva na vida política e participação  com preservação do poder de autodeterminação pessoal, seja em termos de impor abstenções ao Estado, seja em termos de lhe exigir prestações´  “ (SILVA NETO, Manoel Jorge e. Curso de Direito Constitucional. 8 ed. São Paulo, Saraiva, 2013, p. 313-314).

Infelizmente, numa sociedade sem direitos sociais, não há que se falar em cidadania. Como mencionar autodeterminação social sem educação de qualidade, por exemplo? Há um grande distanciamento do ideal. Quando as normas sociais são rotuladas de programáticas e distantes da realidade, há um arrefecimento do coração, da alma.

Com um quadro político entristecedor, a esperança muitas vezes repousa no Judiciário, no enfrentamento de questões que caberiam ao Executivo e Legislativo, mas que morreram junto com a nossa atual política.

Citando os dizeres de Barroso, numa gravação que se tornou famosa, a política talvez não tenha morrido, encontra-se gravemente enferma. Tem  razão o ministro ao asseverar que “o sistema político não tem o mínimo de legitimidade democrática. Ele deu uma centralidade imensa ao dinheiro e à necessidade de financiamento. E se tornou um espaço de corrupção generalizada"

O Art. 205 da Constituição Federal é cristalino ao prefaciar: “A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”.

O dispositivo supramencionado angustia. O dever da educação é de um Estado falido (por sinal, percebe-se pela História, nunca foi afeito a assuntos educacionais) e de uma família desestruturada (lares destruídos, crianças nas ruas).

A tristeza é maior ao observar que cabe à sociedade, segundo o constituinte, o dever de colaborar com a educação. Uma sociedade que passa por diversos problemas econômicos, sociais, culturais. Numa recente pesquisa, aferiu-se que 92%  dos brasileiros são incapazes de compreender e se expressar.[1]

Assim, soa jocoso enfatizar qualquer cidadania no Brasil. Apenas 8 % da população brasileira é capaz de escrever um e-mail, analisar gráficos e tabelas, argumentar sobre um editorial. Basta uma célere leitura da pesquisa, conduzida pelo IPM (Instituto Paulo Montenegro) e pela ONG Ação Educativa, para obter-se a triste conclusão. 

Por derradeiro, a importância da educação e direitos sociais na obtenção da cidadania também é mencionada por José Afonso da Silva com lembretes adicionais à dignidade, vontade popular e soberania[2]. Em tempos tão cruéis, cabe aos 8% dos plenamente alfabetizados participar ativamente desse processo, numa amplitude máxima.




[1] http://educacao.uol.com.br/noticias/2016/02/29/no-brasil-apenas-8-escapam-do-analfabetismo-funcional.htm
[2] º,AFONSO DA SILVA, José. Curso de Direito Constitucional Positivo. 28 ed. São Paulo, Malheiros, 2007, p. 104 e 105.