quarta-feira, 9 de março de 2016

Platão (427-347 a.C)

Discursar sobre o filósofo Platão (427-347 a.C) é tarefa fundamental no estudo da Ciência Política.

Dois fatos influenciaram muito a vida de Platão: Seu encontro com Sócrates, com aproximadamente vinte anos, e a condenação do seu Mestre, nove anos mais tarde, no fatídico processo que levou Sócrates à morte.

Para Platão existia a realidade inteligível ou mundo das ideias (imutável e igual a si mesma) e a realidade sensível ou mundo empírico (coisas que afetam os sentidos do homem, troando-se realidades mutáveis e dependentes que expressam imagens das realidades inteligíveis). Essa concepção é conhecida por teoria das ideias ou teoria das formas.

Assim, o mundo concreto (empírico)é apenas uma pálida manifestação do mundo das ideias.

Platão entendia o ser humano em sua divisão "corpo e alma". O corpo seria a matéria e a alma seria o imaterial e o divino incorporados no ser humano. As verdades essenciais estariam na alma (que nunca mudaria), mas seriam esquecidas com o nascimento do corpo.

O mundo das ideias, portanto, seria imutável. Por isso, enaltece a busca para descobrir as verdades essenciais das coisas. Esse caminho, dizia, erá bastante árduo e metódico. Afinal, no mundo material, o homem poderia ter apenas a doxa (opinião) e a téchne (técnica). Somente no mundo das ideias poderia ter a épisthéme (conhecimento verdadeiro ou conhecimento filosófico).

Portanto, tendo em vista que apenas os filósofos detinham esse conhecimento, Platão assevera que apenas os filósofos poderiam ser reis.

Nessa toada excelentes são as lições de Pedro Sabino de Farias Neto[1]:

"Platão realçou a educação como o princípio essencial do sistema político, no âmbito dos governantes e dos governados. A educação e a cultura seriam fatores primordiais para a edificação dos espaços públicos, de modo que a política e as leis ficariam condicionadas pela realidade expressa nos ideais e de felicidade humana. Nesse sentido, ele fundou a Academia que resultou em modelo referencial de todas as escolas filosóficas do ocidente. Desse modo, Platão pretendia preparar a transformação da nefasta vida política de seu tempo através da formação intelectual dos dirigentes do Estado e da sociedade"

Ainda citando as lições de Farias Neto, importante se faz ressaltar a preocupação de Platão com um goveno de pessoas capazes:[2]

A política degenerada redunda contrária à natureza, decaindo em forma de realização do egoísmo dos governantes, meio de açambarcação do que é público, instrumento de enriquecimento pessoal à custa da verba pública, forma de espoliação de uma maioria em benefício de uma minoria. A política passa, assim, a ter função primordial de iniquidades e de satisfação de interesses pessoais, desvirtuando a sua devida finalidade. Essa degeneração fica atestada quando o governo conduz a coisa pública em favor dos próprios governantes, que agem segundo suas paixões. Desse modo, onde pessoas são governadas por pessoas prisioneiras de suas paixões, a política degringola no desgoverno. Em razão disso, o Estado deve ser governado por pessoas capazes, em tudo, de imitar os Deuses.”

Para trazer um pouco das ideias de Platão, colaciona-se esquema encontrado na obra “O livro da Política”:[3]

A função dos governantes é assegurar que o povo leve a uma vida digna -----Saber o que é a “vida digna” exige habilidade intelectual e conhecimento da ética e da moralidade -------Apenas filósofos têm habilidade e conhecimento---------O poder político deve ser dado apenas aos filósofos -----Até que os filósofos sejam reis, as cidades jamais estarão a salvo dos seus males.

Convém ressaltar que o ponto de vista de Platão é idealista e moral. Nesse sentido, eis os dizeres de Reinaldo Dias[4]:

A obra mais importante de Platão é A República. Neste livro, tenta estabelecer uma concepção filosófica de justiça e, neste caminho, defende a organização de um Estado ideal, no qual prevaleça a justiça. O ponto de vista de Platão é, antes de tudo, moral e idealista. Platão refuta, em primeiro lugar, a tese dos sofistas de que o direito nasce da força, e coloca que o homem injusto não é feliz. Estuda a natureza do Estado, o qual considera como uma individualidade suprema, traçando a analogia que existe entre os ideiais políticos e individuais. Embora sustente a teoria de que não pode conceber-se o Estado fora dos indivíduos que o integram, cria uma ideia abstrata do Estado e o dota de existência própria, mais real que os próprios indivíduos que a compõem.

Ainda nos dizeres de Reinaldo Dias, reitera-se a preocupação de Platão com a escolha de um grupo seleto para a política[5]:

(...) Sua preocupação central está na classe governante, comporta por homens seletos de idade madura. Esta classe se educa seguindo determinado sistema de ensino; não tem família, nem interesses materiais; tem uma vida comum, estuda filosofia e tem sob sua responsabilidade as tarefas do governo.
Para assegurar a unidade orgânica do Estado, Platão propõe a abolição da propriedade privada e dos laços familiares. Fica sob responsabilidade do Estado a seleção dos progenitores, com o objetivo de assegurar uma boa descendência; e também sob seus cuidados a educação física e intelectual dos jovens. A educação, vigiada pelos magistrados, capacitaria cada indivíduo para uma função especial, escolhendo-se um conjunto seleto para integrar o grupo dos filósofos e governantes.”

Com o intuito de elucidar as ideias de Platão, eis algumas de suas importantes frases:

“A democracia vira despotismo”
“E o maior castigo consiste em ser governado por alguém ainda pior do que nós, quando não queremos ser nós a governar”
“Democracia...é cheia de variedade e desordem, dando igualdade para iguais e para os desiguais da mesma forma”

As principais obras políticas de Platão são: A República, O Político e as leis.

Em que pese a visão de alguns pensadores, no sentido de que suas ideias seriam autoritárias e elitistas (ideais hoje em dia reavaliadas), a importância de Platão na Ciência Política é inegável.




[1] FARIAS NETO, Pedro Sabino. Ciência Política: Enfoque Integral Avançado. São Paulo, Atlas, 20101, p. 215.

[2] Op cit p. 218
[3] PAUL, Kelly. (et all). O livro da Política. São Paulo, Globo, 2013, p. 36.
[4] DIAS, Reinaldo. Ciência Política. 2 ed. São Paulo, Atlas, 2013, p 21.
[5] Op. Cit. p.22

Nenhum comentário:

Postar um comentário